Diversidade da vegetação: rarefação, estimadores e diversidade beta

Fitossociologia
Diversidade
Curva do coletor, rarefação, estimadores de riqueza (Chao 1, Jackknife) e partição da diversidade em alfa, beta e gama, com os dados abertos caixeta.
Autor

LEDT/UFAM

Nível: intermediário · Pacotes: apenas R básico · Disciplina: FGD320 - Fitossociologia · Baixar script · Baixar dados caixeta

Na prática de heterogeneidade, o caixetal da Jureia teve mais espécies (22) que os outros dois (13). Mas ele também foi amostrado com o mesmo esforço? Com menos árvores, esperamos encontrar menos espécies, mesmo que a comunidade seja igualmente rica. Nesta rotina, vemos como comparar a riqueza de forma justa, estimar quantas espécies faltam e separar a diversidade dentro e entre as áreas.

Roteiro da aula prática (30/10 · EE7)
  1. Construir a curva do coletor (seção 2);
  2. Comparar os caixetais pela rarefação (seção 3);
  3. Estimar a riqueza total com Chao 1 e Jackknife (seção 4);
  4. Partir a diversidade em alfa, beta e gama (seção 5) e responder aos exercícios (seção 6).

1. Dados

cx <- read.csv("../dados/caixeta.csv")   # no seu projeto: read.csv("dados/caixeta.csv")
cx$especie[cx$especie == "Callophyllum brasiliensis"] <- "Calophyllum brasiliensis"

arv <- unique(cx[, c("local", "parcela", "arvore", "especie")])   # uma linha por árvore
arv$parc <- paste(arv$local, arv$parcela, sep = "_")

ab_parc  <- unclass(table(arv$parc, arv$especie))    # parcela × espécie
ab_local <- unclass(table(arv$local, arv$especie))   # local × espécie
rowSums(ab_local)                                    # árvores por caixetal
chauas jureia retiro 
   290    178    204 

2. Curva do coletor (acumulação de espécies)

A curva do coletor mostra quantas espécies novas aparecem à medida que acrescentamos parcelas. Se ela se estabiliza (assíntota), a amostragem foi suficiente. Como a ordem das parcelas muda o resultado, sorteamos a ordem muitas vezes e usamos a média:

coletor <- function(m, n_perm = 200) {
  m <- m > 0
  res <- replicate(n_perm, {
    ordem <- sample(nrow(m))
    sapply(seq_along(ordem), function(k) sum(colSums(m[ordem[1:k], , drop = FALSE]) > 0))
  })
  data.frame(parcelas = 1:nrow(m), media = rowMeans(res),
             inf = apply(res, 1, quantile, 0.025), sup = apply(res, 1, quantile, 0.975))
}

set.seed(2026)
cc <- coletor(ab_parc)
cc
   parcelas  media    inf    sup
1         1  6.480  2.000 12.000
2         2 11.095  4.000 19.025
3         3 15.095  5.975 25.000
4         4 18.595  9.950 29.000
5         5 21.715 12.000 31.000
6         6 24.540 15.975 33.000
7         7 26.955 18.000 35.000
8         8 29.545 21.000 37.000
9         9 31.910 24.000 39.000
10       10 34.020 25.975 40.000
11       11 35.945 29.000 41.000
12       12 37.780 31.975 42.000
13       13 39.270 33.975 42.000
14       14 40.730 36.000 42.000
15       15 42.000 42.000 42.000
plot(cc$parcelas, cc$media, type = "n", ylim = c(0, max(cc$sup) + 5),
     xlab = "Número de parcelas (200 m² cada)", ylab = "Número de espécies")
polygon(c(cc$parcelas, rev(cc$parcelas)), c(cc$inf, rev(cc$sup)), col = "#78c2ad55", border = NA)
lines(cc$parcelas, cc$media, lwd = 2, col = "#2c7a5e")
points(cc$parcelas, cc$media, pch = 19, col = "#2c7a5e")

Curva do coletor das 15 parcelas (média de 200 ordens sorteadas e intervalo de 95 por cento).

Curva do coletor das 15 parcelas (média de 200 ordens sorteadas e intervalo de 95 por cento).

3. Rarefação: comparar a riqueza com o mesmo número de indivíduos

A rarefação (Hurlbert 1971) responde: quantas espécies esperaríamos encontrar se tivéssemos amostrado só \(n\) indivíduos? Assim, comparamos as áreas com o mesmo esforço:

\[E(S_n) = \sum_{i=1}^{S} \left[ 1 - \frac{\binom{N - N_i}{n}}{\binom{N}{n}} \right]\]

em que \(N\) = total de indivíduos e \(N_i\) = indivíduos da espécie i.

rarefacao <- function(x, n) {
  x <- x[x > 0]; N <- sum(x)
  sapply(n, function(k) sum(1 - exp(lchoose(N - x, k) - lchoose(N, k))))
}

n_min <- min(rowSums(ab_local))          # o menor caixetal (jureia, 178 árvores)
sapply(rownames(ab_local), function(l) round(rarefacao(ab_local[l, ], n_min), 1))
chauas jureia retiro 
   9.7   22.0   12.4 
cores <- c(chauas = "#1b9e77", jureia = "#d95f02", retiro = "#7570b3")
plot(NA, xlim = c(1, max(rowSums(ab_local))), ylim = c(0, 25),
     xlab = "Número de árvores", ylab = "Número esperado de espécies")
for (l in rownames(ab_local)) {
  n <- 1:sum(ab_local[l, ])
  lines(n, rarefacao(ab_local[l, ], n), lwd = 2, col = cores[l])
}
abline(v = n_min, lty = 2, col = "grey50")
legend("bottomright", legend = names(cores), col = cores, lwd = 2, bty = "n")

Curvas de rarefação dos três caixetais. A linha tracejada marca o tamanho do menor caixetal.

Curvas de rarefação dos três caixetais. A linha tracejada marca o tamanho do menor caixetal.

4. Quantas espécies faltam? Estimadores de riqueza

Os estimadores não paramétricos usam as espécies raras para estimar quantas ainda não foram encontradas:

Estimador Fórmula Baseado em
Chao 1 \(S_{obs} + \frac{F_1(F_1 - 1)}{2(F_2 + 1)}\) singletons (\(F_1\), espécies com 1 indivíduo) e doubletons (\(F_2\), com 2)
Jackknife 1 \(S_{obs} + Q_1 \frac{m - 1}{m}\) \(Q_1\) = espécies em uma só parcela; \(m\) = número de parcelas
estimadores <- function(m) {          # m = parcela × espécie (abundâncias)
  x  <- colSums(m); x <- x[x > 0]
  Sobs <- length(x); F1 <- sum(x == 1); F2 <- sum(x == 2)
  inc <- colSums(m > 0); inc <- inc[inc > 0]
  Q1 <- sum(inc == 1); k <- nrow(m)
  c(S_obs = Sobs, F1 = F1, F2 = F2, Chao1 = Sobs + F1 * (F1 - 1) / (2 * (F2 + 1)),
    Q1 = Q1, Jack1 = Sobs + Q1 * (k - 1) / k)
}

est <- rbind(
  t(sapply(split(as.data.frame(ab_parc), sub("_.*", "", rownames(ab_parc))),
           function(d) estimadores(as.matrix(d)))),
  total = estimadores(ab_parc))
knitr::kable(est, digits = 1, caption = "Riqueza observada e estimada por caixetal e no total.")
Riqueza observada e estimada por caixetal e no total.
S_obs F1 F2 Chao1 Q1 Jack1
chauas 13 8 1 27.0 9 20.2
jureia 22 8 3 29.0 8 28.4
retiro 13 4 4 14.2 7 18.6
total 42 18 8 59.0 22 62.5

Com só 5 parcelas por local, os estimadores são pouco precisos. Eles indicam a ordem de grandeza da riqueza que falta, não um valor exato.

5. Diversidade alfa, beta e gama

Whittaker (1960) separou a diversidade em três níveis:

  • alfa (\(\alpha\)): diversidade dentro de cada unidade (média das parcelas ou dos locais);
  • gama (\(\gamma\)): diversidade total da região;
  • beta (\(\beta\)): diferença de composição entre as unidades.

Na forma multiplicativa, \(\beta = \gamma / \bar\alpha\) (quantas “unidades completamente diferentes” existem); na forma aditiva, \(\beta = \gamma - \bar\alpha\) (quantas espécies faltam, em média, em cada unidade).

particao <- function(m) {
  alfa <- mean(rowSums(m > 0)); gama <- sum(colSums(m) > 0)
  c(alfa = alfa, gama = gama, beta_mult = gama / alfa, beta_adit = gama - alfa)
}

rbind(
  `parcelas dentro de chauas` = particao(ab_parc[grepl("chauas", rownames(ab_parc)), ]),
  `parcelas dentro de jureia` = particao(ab_parc[grepl("jureia", rownames(ab_parc)), ]),
  `parcelas dentro de retiro` = particao(ab_parc[grepl("retiro", rownames(ab_parc)), ]),
  `entre os caixetais`        = particao(ab_local)
) |> round(2)
                          alfa gama beta_mult beta_adit
parcelas dentro de chauas  5.0   13      2.60       8.0
parcelas dentro de jureia  9.0   22      2.44      13.0
parcelas dentro de retiro  5.4   13      2.41       7.6
entre os caixetais        16.0   42      2.62      26.0

Se a beta entre os caixetais se aproxima de 3 (o número de locais), quase não há espécies em comum: cada caixetal funciona como uma comunidade diferente, apesar de todos serem dominados pela caixeta.

6. Exercícios

Para entregar (EE7)
  1. A curva do coletor das 15 parcelas se estabilizou? O que isso diz sobre a suficiência amostral?
  2. Com o mesmo número de árvores (rarefação), a Jureia continua sendo o caixetal mais rico? A diferença em relação aos outros diminuiu?
  3. Quantas espécies os estimadores Chao 1 e Jackknife 1 sugerem que ainda faltam em cada caixetal? Qual deles você considera mais adequado para parcelas pequenas?
  4. Compare a diversidade beta dentro de cada caixetal e entre os caixetais. Onde está a maior parte da diversidade da região?
  5. Como a padronização dos nomes (morfoespécies que podem ser a mesma espécie) afetaria a diversidade beta?
  6. Escreva um parágrafo-síntese que una os resultados de estrutura, padrão espacial, similaridade e diversidade dos caixetais. Este parágrafo será o ponto de partida da discussão do relatório.
Para o relatório (formato de artigo)

Esta prática gera a Figura 5 (curvas de rarefação) e a Tabela 5 (estimadores e partição da diversidade). O parágrafo-síntese do exercício 6 abre a discussão.

Referências

  • CHAO, A. Nonparametric estimation of the number of classes in a population. Scandinavian Journal of Statistics, v. 11, p. 265-270, 1984.
  • GOTELLI, N. J.; COLWELL, R. K. Quantifying biodiversity: procedures and pitfalls in the measurement and comparison of species richness. Ecology Letters, v. 4, p. 379-391, 2001.
  • HURLBERT, S. H. The nonconcept of species diversity: a critique and alternative parameters. Ecology, v. 52, p. 577-586, 1971.
  • MAGURRAN, A. E. Medindo a diversidade biológica. Curitiba: Ed. UFPR, 2011.
  • WHITTAKER, R. H. Vegetation of the Siskiyou Mountains, Oregon and California. Ecological Monographs, v. 30, p. 279-338, 1960.
  • VANIN, A. 1999. Dissertação de mestrado (dados caixeta). Dados disponíveis em: https://ecor.ib.usp.br/doku.php?id=dados:dados-caixeta.